Blog do Soares - temas políticos


PRIMÁRIAS IRRELEVANTES

Por Atílio Boron – Cientista político argentino

Publicação do jornal Página/12 – 05/01/2012

Tradução de Luiz Carlos Correa Soares

Nos últimos dias apareceram duas magníficas notas que dão conta daquilo que em trabalhos anteriores tínhamos qualificado como "decomposição moral" do Império. Em uma delas, Juan G. Tokatlian (El País, 2 de janeiro de 2012) fala do acelerada e irreversível avanço da "pós-legalidade", vocábulo adequado para se referir à descarada apelação a metodologias e formas de ação completamente em desacordo com a própria legalidade estadunidense por parte da Casa Branca.

Deste modo, o indigno Nobel da Paz que se senta no Gabinete Oval da Casa Branca ordena crimes e assassinatos de cidadãos estrangeiros e norte-americanos, envia aviões não tripulados - "drones" - para massacrar populações  indefessas sem pagar qualquer custo, ante uma opinião pública estupidizada pela indústria cultural do capitalismo. Enquanto isso, passo a passo, vai reduzindo liberdades públicas estabelecidas pela Constituição dos Estados Unidos, as quais desde Ronald Reagan até aqui vêm se convertendo em letra morta. 

Nesta mesma linha, Juan Gelman publicou na edição de 2 de janeiro deste Jornal [Página/12] uma nota onde demonstra que o "progressista" Barack Obama já ultrapassou o recorde de seu infeliz antecessor em matéria de atropelos aos padrões de justiça e de direitos humanos. Apesar de suas ardentes promessas de campanha, não fechou Guantánamo; retirou parte das tropas estacionadas no Iraque - se bem que deixando um bom número de "assessores" -, mas continuou a guerra no Afeganistão e estendeu as hostilidades ao Paquistão; nos bastidores da OTAN foi o ator principal na tragédia da Líbia, conforme foi reconhecido pelo The New York Times.

Se G. W. Bush inventou o resgate dos bancos, seu sucessor aprofundou esta política. Se aquele havia escrito o rascunho do Tratado EUA - Colômbia, que autoriza o uso de bases militares (até agora sete) nesse país sul-americano, foi Obama quem ratificou o acordo, colocando sua assinatura junto a um personagem sinistro como Álvaro Uribe. Em matéria de economia, as políticas de resgate econômico de delinquentes de colarinho branco e ternos Armani que pululam em Wall Street - resgate feito em detrimento dos devedores de hipotecas – prosseguiram seu curso triturando as ilusões do "American dream": já existem dois milhões de famílias jogadas na rua e se estima que sejam cinco milhões nos próximos dois ou três anos. 

Tendo em vista esses antecedentes, a quem importa as primárias republicanas de Iowa? Quais são as razões pelas quais a imprensa mundial outorga tanta importância a um rito midiático como esse, carente de qualquer transcendência? Para não falar das declarações dos candidatos republicanos, as mais retrógradas e reacionárias.

Reflexões estas que se poderiam estender, sem qualquer risco, para a própria eleição presidencial dos Estados Unidos. Porque, como dizem alguns dos (poucos) cientistas políticos críticos que existem naquele país: a que vem tanto ruído se o “governo permanente", que realmente detém as rédeas do poder em suas mãos, o complexo militar-industrial e seus aliados, estão fora do alcance do eleitorado?

Não importa quem o povo eleja nem o mandato que outorgue ao candidato eleito porque aqueles que realmente mandam é que sabem o que é bom para Estados Unidos e o que se tem de fazer. E, para os eleitores, o veredito das urnas resulta absolutamente irrelevante. 



Escrito por Luiz C.C.Soares às 23:12
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ELEIÇÃO, FUNDAMENTOS E MIUDEZAS

Luiz Carlos Correa Soares

Em abordagens anteriores tenho destacado conceitos e definições de Estado e não cabe repetir. É essencial, porém, enfatizar o entendimento, que vem desde Marx, de que o Estado - sistema organizador e administrador do território, da sociedade e do governo – opera sempre no interesse das classes dominantes.

O sagrado é um tema que tem provocado a análise de pensadores de grande relevância na história do pensamento filosófico, científico e religioso. Mesmo assim, um grande desafio ainda não dirimido parece ser a questão de limites e contornos – caso existam – entre a aparente dicotomia natural x sobrenatural ou material x imaterial.

Em síntese, pode-se dizer que o sagrado explicita percepções dos seres humanos quanto ao encantamento do mundo, de modo diferenciado em relação à importância, à dimensão e ao conteúdo das percepções dicotômicas acima destacadas.

Todavia, pode-se admitir que, desde as sociedades mais primitivas até a atual fase da chamada modernidade, o sagrado se manifesta no Homem como decorrente da sua imanência natural no que se refere ao sentido do divino ou, mesmo, da divinação. Em outras pobres palavras: os vários graus de manifestação de religiosidade nos seres humanos originam-se do seu senso comum em relação ao sagrado. E, como decorrência, embasam as manifestações de sacralidade em toda a história humana.

De qualquer modo, parece nítido que Estado e sagrado pouco tem a ver entre si. Ou seja, que os seus respectivos conceitos, interesses e objetivos não devem ser confundidos. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Ou, mais popularmente, “cada macaco no seu galho”!

Em verdade, deveria ser assim, mas em muitos momentos da História não tem sido. Como bem lembramos, foi o caso de imperadores deificados no antigo Egito, no Oriente e em outras regiões do planeta. É de se destacar também os processos simbióticos Estado-Igreja ocorridos na Idade Média, com os resultados obscurantistas e reprováveis que conhecemos. Ou as incursões “civilizatórias”, em nome da fé, que produziram imensos extermínios de povos indígenas, ocorridas nas Américas pós-Colombo e Cabral. E tantos exemplos mais.

Modernamente, temos presenciado conflitos “étnicos-econômicos-religiosos” – sem se saber qual o fator prevalente -, tais como o permanente conflito palestino-israelense. Ou “étnicos-econômicos-fundamentalistas” – idem... -, tais como a questão EUA e aliados x Iraque e Afeganistão. E, ainda, um possível e provável confronto estadunidense-iraniano, a ameaça mais recente.

É suposto que no Brasil moderno, de acordo com a Constituição Federal de 1988, devemos ter um “Estado laico” e, portanto, sem problemas de “interconexões simbióticas” com o sagrado. Será isso mesmo? Nos últimos tempos, em especial no processo eleitoral de 2010, têm ocorrido episódios marcantes - exacerbados e badalados na mídia e também na Internet - que estão a indicar que não é bem assim.

Tais procedimentos, produzidos ao sabor de fundamentalismos religiosos conjugados com processos políticos reacionários e retrógrados, parecem ser indícios claros quanto à possibilidade de futuras consequências conflituosas de significativa magnitude. Se for isso verdadeiro, esses procedimentos, já por si indesejáveis, se tornam absolutamente inaceitáveis sob qualquer ângulo de análise séria e isenta de tendenciosidades.

É notório e notável que a base fundamental para tais disfunções, tanto na lógica política como na religiosa, reside na falta de formação e informação adequadas ao conhecimento da realidade política, econômica e social que estamos vivendo. Isso, por sua vez, decorre das deficiências na disponibilidade de sistemas, processos e mecanismos de informação isentos de ideologias. Estas, como sabemos, estão sempre atreladas à manutenção do status quo e aos interesses inconfessáveis na manutenção ou na retomada dos sistemas de poder. E, por quaisquer meios, sempre têm visado apenas os interesses dominantes e exploradores.

Essas são condições e circunstâncias predominantes na sociedade brasileira e alguns inegáveis avanços, havidos nos últimos anos, ainda são frágeis e tênues em relação aos desejos e necessidades incomensuráveis, acumuladas por decênios ou mesmo séculos de dominação e exploração política e econômica em nosso país. Há ainda muito, muito mesmo, a fazer.

Esse é o verdadeiro debate que deve ser relevante e permanente na vida cotidiana da população brasileira, para se contrapor a fundamentalismos tendenciosos de quaisquer naturezas, via mídia e via Internet, cujo objetivo principal – e sub-reptício - é desviar o foco da nossa atenção quanto às cruéis realidades nacionais.

Qual o verdadeiro projeto de Brasil, pelo menos para 2011-2014? No processo eleitoral de 2010, com a fragilidade ou a ausência de programas e compromissos expressos, não é possível saber. É que o debate dos reais avanços de interesse da sociedade em geral está soterrado por miudezas, incoerências e inconsequências, que atingem o nível do escárnio e do total desrespeito para com o povo deste nosso Brasil, rico e pobre, ao mesmo tempo. Ou seria mais adequado dizer apenas Pobre Brasil?



Escrito por Luiz C.C.Soares às 01:42
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Semana de retrocessos

Vou ter que me tornar repetitivo e chato (mais ainda do que já sou...)!

Quando eu falo que a política no Brasil virou putaria e filha-da-putice, ou seja, absoluto jogo de interesses particulares de pessoas e de grupos - com as excessões de praxe -  acham que estou muito radical...!

IHU - 16/7/2010

Uma semana de muitos retrocessos

"Os críticos do projeto (das alterações do Código Florestal) cansaram-se de mostrar estudos provando que não é preciso desmatar mais para aumentar a produção agropecuária do País; que crescem as críticas ao Brasil em países importadores de soja, carne e madeiras", escreve Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 16-07-2010.

Segundo ele, "acandidata Marina Silva chegou a dizer que, se eleita presidente, vetará a lei, caso seja aprovada pelo Congresso".

Eis o artigo.

Foi lamentável a semana passada no Congresso Nacional. Além de, pela enésima vez, a Comissão de Meio Ambiente da Câmara adiar a apreciação do relatório que recomenda o banimento do amianto em território brasileiro - comentada neste espaço na edição de sexta-feira passada -, outras decisões infelizes marcaram o período: 1) A aprovação, numa comissão especial da Câmara, do projeto que prevê várias alterações no Código Florestal brasileiro - com vários itens muito preocupantes; 2) a supressão, no Senado, de um dispositivo da Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos que não permitia a incineração de resíduos para geração de energia, a não ser quando esgotadas as opções de reciclagem.

A Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos contém princípios importantes, como já foi comentado neste espaço - a adoção da logística reversa, que envolve na destinação dos resíduos toda a cadeia do lixo (fabricantes, comerciantes, consumidores, governos); os incentivos à reciclagem e às cooperativas de catadores de lixo, entre outros. Mas são ainda princípios, que exigirão que sejam criados instrumentos práticos para sua efetivação. E com urgência, porque a geração de lixo continua crescendo (7% em 2009) e quase metade do lixo coletado no País (mais de 1 kg diário por pessoa, na média) continua sendo levada para lixões, 70% dos municípios dão destinação inadequada aos resíduos e a reciclagem total não passa de 12% do total recolhido, segundo a Abrelpe, a associação das empresas do setor. A logística reversa para produtos eletrônicos, pilhas, baterias e pneus, entre outros itens, é vital, já que o Brasil descarta a cada ano 1 milhão de computadores (produz 12 milhões por ano); 82 em 100 pessoas têm telefone celular (que contém metais tóxicos) e a vida média útil de cada aparelho é de três a cinco anos.

Não estranha, nessas condições, que praticamente todas as grandes cidades brasileiras estejam com seus aterros sanitários esgotados. Com a agravante de que implantar e operar um novo é extremamente difícil e custa muito caro. Além disso, em quase toda parte a reciclagem é insignificante. E isso contraria os princípios de uma boa política de resíduos, que deve ter como seu primeiro objetivo a redução do lixo; e como segundo princípio, a reutilização e reciclagem de materiais. A incineração só deveria ser a última opção, como constava do projeto submetido ao Senado após 19 anos de discussões. Além disso, a incineração é um processo muito caro, que exige altas temperaturas - principalmente quando os resíduos orgânicos estão misturados ao lixo seco, como aqui -, para evitar a emissão de poluentes carcinogênicos (dioxinas, furanos). Esse caminho também implica que se precise gerar cada vez mais lixo, para alimentar os fornos de incineração, já que cresce o consumo de energia. Só convém mesmo às empresas incineradoras e às coletoras de lixo (às quais também interessa que haja cada vez mais resíduos, já que são pagas por tonelada recolhida).

O terceiro episódio lamentável da semana passada no Congresso foi a aprovação, na comissão especial da Câmara, por 13 votos a 5, do projeto que altera o Código Florestal - e que ainda terá de ir a plenário, provavelmente em 2011. Para a aprovação agora pesou decisivamente que o PT, o PMDB e o PSDB tenham liberado seus representantes para votar a favor, se quisessem, ao lado do PCdoB (partido do relator do projeto, deputado Aldo Rebelo), do PSB, do PTB e do PP. Só votaram contra um deputado do PV, um do PSOL e mais três do PT, PSDB e PSB.

De pouco adiantaram advertências do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério Público Federal, do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, de muitas instituições e organizações ambientalistas quanto a itens mantidos no projeto pelo relator - como a anistia para desmatadores (que, segundo o Ibama, implicará também perdão de R$ 10,6 bilhões em multas já aplicadas e não pagas), a redução de reserva legal em áreas desmatadas ocorrida antes de entrarem em vigor novas exigências (como preservação de 80% em áreas florestais da Amazônia e de 35% nas áreas de transição para o Cerrado). E algumas consequências, como a dificuldade de exigir a manutenção de reserva legal nas propriedades em geral; o possível comprometimento das metas brasileiras de reduzir emissões que agravem o efeito estufa, com o estímulo a mais desmatamento; os riscos de desastres climáticos para populações que vivem em áreas que deveriam ser de preservação permanente; e outras mais.

Os críticos do projeto cansaram-se de mostrar estudos provando que não é preciso desmatar mais para aumentar a produção agropecuária do País; que crescem as críticas ao Brasil em países importadores de soja, carne e madeiras (o Parlamento Europeu, por exemplo, acaba de aprovar resolução que proíbe o comércio, com 27 países, da madeira extraída ilegalmente; a moratória da soja está sendo prorrogada; enfrentamos dificuldades com a exportação de carnes por causa da falta de sistemas confiáveis de rastreamento da origem). A candidata Marina Silva chegou a dizer que, se eleita presidente, vetará a lei, caso seja aprovada pelo Congresso.

E sobrou muita pancada para o relator, deputado Aldo Rebelo, já apontado como "vanguarda do atraso", lembrando haver ele comandado também, no Congresso, a blitz com que o Executivo federal aprovou ali a legislação sobre alimentos transgênicos, apesar da oposição dos Ministérios do Meio Ambiente e da Saúde, que pretendiam exigir estudos prévios de impacto ambiental e epidemiológicos (para verificar possíveis danos à saúde dos consumidores de alimentos transgênicos). O conceituado professor Aziz Ab’Saber, da USP, chegou a escrever que o deputado é "neófito em matéria de questões ecológicas, espaciais e em futurologia".

Resta ver o que farão, daqui para a frente, os adversários do projeto. E que acolhida terão no Congresso



Escrito por Luiz C.C.Soares às 11:22
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Jornada menor de trabalho e taxaçao de fortunas

Quando eu falo que a política no Brasil virou putaria e filha-da-putice, ou seja, absoluto jogo de interesses particulares de pessoas e de grupos - com as excessões de praxe -  acham que estou muito radical...!

Jornada menor e taxação de fortunas. Radicais? Uma pinóia!

Blog do Sakamoto

Alguém me explique, por favor, eu imploro, por que a taxação de grandes fortunas e a redução da jornada de trabalho estão sendo consideradas ações radicais? Aliás, radical na opinião de quem? Dos trabalhadores e da imensa maioria da população que se beneficiaria com essas medidas?

Primeiro, a Organização Internacional do Trabalho divulgou, recentemente, um estudo mostrando que a redução do teto da jornada para 40 horas semanais, como defendem as centrais sindicais, beneficiaria um contingente de 18,7 milhões de trabalhadores brasileiros.

Enquanto isso, ao fundo, feito um tragédia grega, o coro das carpideiras do mercado canta: “Radicalismo! Radicalismo! Radicalismo! Esse povo quer destruir os fundamentos da democracia brasileira com seus anseios de ficar mais com a família, descansar, investir em formação pessoal! Vão trabalhar, seus vagabundos! Só o trabalho liberta! Radicalismo!”

Segundo, há estudos que apontam que o PIB brasileiro comportaria um aumento até maior do salário mínimo, desde que houvesse uma real distribuição de renda, de direitos e de justiça. Ou seja, redução da desigualdade. Alguns perderiam para muitos ganharem. Da cobrança de altos impostos sobre grandes fortunas até a taxação de heranças seguindo um modelo americano ou europeu, passando pelo aumento no imposto de renda de quem ganha bastante. Se alguns pagarem mais imposto, a maioria pode pagar menos, considerando que, hoje, proporcionalmente, os muito ricos não pagam tanto imposto quanto os mais pobres.

Enquanto isso, ao fundo, feito um tragédia grega, o coro das carpideiras do mercado canta “Radicalismo! Radicalismo! Radicalismo! Cobrar dos que têm mais para desonerar os que têm menos? Isso só é bonito nos filmes de Robin Hood. Na vida real, é comunismo! Qual o próximo passo? Tomar nossa casa e vender nossos filhos como escravos? Que culpa eu tenho de ser rico? Radicalismo!”

O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional. Luiz Inácio Lula da Silva, antes de se tornar o queridão do mercado, também defendia a redução na jornada de trabalho. O poder muda as pessoas, é fato. O pior é ter que ouvir dos próprios que eles não mudaram, apenas ganharam uma consciência ampliada a partir do cargo em que ocupam/ocuparam.

Pior, ainda mais, é que talvez isso seja, de fato, verdade. E que nenhum dos dois principais partidos políticos hoje no país, que se dizem progressistas, tenha coragem de escancarar propostas como essas em seus programas de governo. Dando, com seu silêncio, anuência ao coro das carpideiras.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 22:59
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Indicadores do desenvolvimento

Os indicadores de desenvolvimento

Define-se um indicador relevante, que permita avaliar qualitativamente o processo analisado.

A partir dele, estipulam-se metas de desempenho e corre-se atrás.

Embora seja be-a-bá de gestão, nos últimos anos houve uma grita crescente contra os indicadores, devido a inúmeras distorções ocorridas com o seu uso. O problema não eram os indicadores em si, mas sua má utilização.

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Na macro-economia, por exemplo, utilizava-se o indicador superávit primário (receitas menos despesas do governo) para analisar a qualidade do gasto público. Se o governante deixasse de investir em uma estrada, havia deterioração. De um lado, não cumpriria sua função de garantir transporte barato e seguro para o contribuinte – objetivo maior. De outro, exigiria investimentos muito maiores no futuro, para recuperá-la.

A contabilidade usa o conceito de depreciação para estimar o valor de reposição de determinado bem. Na área pública, durante décadas esses conceitos foram jogados no lixo. A infra-estrutura era destruída enquanto se celebrava um superávit falso.

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Não apenas isso.

Diversas tentativas de gestão pública concentravam-se exclusivamente na despesa direta, sem analisar outras implicações – as chamadas externalidades.

Por exemplo, o rigoroso ajuste fiscal ocorrido nos anos 1990 e 2000 foi responsável pelo corte de departamentos inteiros na União e nos estados, esvaziamento de órgãos de planejamento, debandada da inteligência estratégica. Quando a economia recobrou o ritmo, percebeu-se que havia dificuldades até para desenhar projetos.

Na área federal, grandes departamentos planejadores haviam sido dizimados. Em estados como São Paulo, a tradição de planejamento da Emplasa, Cepam, Fundação Seade totalmente esvaziada.

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A culpa não é do indicador mas do seu uso.

Por exemplo, indicadores de saúde precisam levar em conta, primeiro: os índices de universalização do atendimento; o grau de qualidade do serviço público; os indicadores de saúde da população atendida. A partir desses indicadores, tratar, então, de buscar o máximo de eficiência e de economia. Mas sempre levando em conta que os indicadores de satisfação não podem ser prejudicados.

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No campo macro, historicamente o indicador mais festejado era o PIB (Produto Interno Bruto) – que mede o conjunto de riquezas gerada pelo país.

Nos últimos anos, ganham cada vez mais expressão o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, que mede fatores básicos, como educação saúde), o Coeficiente de Gini (que mede os graus de concentração de renda de uma sociedade), as Metas do Milênio (conjunto de indicadores sociais a serem atendidos.

O grau de desenvolvimento do país passa a ser visto de forma mais complexa e completa. No final, consiste no grau de desenvolvimento do seu povo.

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Ontem o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulgou o nome dos estados brasileiros que conseguiram atingir as metas do milênio. Foram apenas sete, todos do sul-sudeste: Santa Catarina lidera os avanços, com 67% de redução da pobreza, Paraná (60%), Rio Grande do Sul (54%), Minas Gerais (53%), Espírito Santo (51%) e Rio de Janeiro (50%). Um único estado fora da região: Goiás (53%). E um único estado da região que não conseguiu atingir os índices: São Paulo, que reduziu a pobreza em apenas 30%.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 22:50
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Coligações

Oi, gente,

Após um longo tempo, no qual este blog esteve inativo por várias razões, inclusive preguiça, estamos de volta. Vamos ver se agora consigo ser mais participativo.

O blog do Fernando Rodrigues, em 13.07.2010, traz um quadro das coligações para as eleições deste anos e faz as seguintes considerações:

"O líder do governo Lula no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), por exemplo, disputará a reeleição numa chapa junto com o DEM e com o PSDB – arquiinimigos do PMDB e do governo Lula em Brasília. 
No Maranhão, o DEM abandonou o PSDB e apoia a candidata lulista de Roseana Sarney (PMDB).
PT e PMDB estão na coligação “Para o Brasil seguir mudando” (com PDT, PSB, PR, PC do B, PRB, PTN, PSC e PTC), que apóia Dilma Rousseff para presidente da República. As duas siglas vão se enfrentar diretamente ou estão em coligações adversárias em 13 Estados: Acre, Amazonas, Amapá, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Nos outros 13 Estados e no Distrito Federal, os partidos estão juntos.
PSDB e DEM montaram a coligação “O Brasil pode mais” (que inclui PPS, PTB, PMN e PT do B), de apoio a José Serra (PSDB). Só que tucanos e demistas vão se enfrentar ou apoiar adversários em 5 Estados: Amazonas, Amapá, Maranhão, Rondônia e Sergipe. No Rio Grande do Sul, o DEM não participa de nenhuma chapa, então não apóia nem concorre com o PSDB. Nos outros 20 Estados e no Distrito Federal, democratas e tucanos estão juntos (em Sergipe, a aliança é apenas para o cargo de governador; os partidos integram chapas diferentes para o Senado)"

Reflitamos.

Partido, etimologicamente, é parte. No mundo, em todos os tempos, os partidos que quiseram ser "o todo", se ferraram. No Brasil, os "partidos" cada vez são menos parte. Ou partes menores, que dá no mesmo. Partidos nacionais, só tem os pequenos, ainda de esquerda. Porque possuem, ainda, alguns fundamentos de idéias e de ideais. O resto, é o resto. Cada vez mais resto.

Os partidos ditos "grandes" tentam ser federações partidárias mas nem isso conseguem porque já são menos do que organizações estaduais. No andar da carruagem da prática politica atual acredito que teremos, muito em breve, partidos municipais, partidos de bairros, partidos familiares, partidos do eu sozinho. Ah, restará o partido da grande mídia, esse é uno e indestrutível.

Eleição? pra que eleição? Reune-se meia dúzia de 3 ou 4 (já não é nem meia dúzia), fazem os conchavos ("eu fico com isto, tu fica com isso, ele fica com aquilo") e pronto! Fazem-se as nomeações, emitem-se os éditos reais, papais, lulais, dilmais, serrais, requionais, osmarais, betais. Esses "quetais" escolhem seus comparsas e tá feito. Tudo muito prático e eficaz. Economiza-se um monte de coisas: dinheiro que iria ser botado fora, mentiras que seriam distribuídas a torto e a direito (ou, melhor, só a torto), ofensas à inteligências das pessoas, abusos com a boa vontade das pessoas, tempo das pessoas que poderiam estar fazendo outras coisas, inclusive o meu, que estou perdendo tempo escrevendo e o de quem possa estar lendo estas besteiras. E por aí vai.

Estou ficando muito azedo e radical? Com certeza, sim. É uma questão de idade? Não, ainda existem muitos velhinhos doces e meigos por aí e eu, normalmente, sou um deles. Dormi com os pés destapados? Também não! Qual é, então, o problema? É apenas e tão somente uma reação que entendo natural à putaria, a filha-da-putice, à desfaçatez e à estupidez políticas. Só isso!

O que fazer? Pra começar, podem ler algo em meu livro atual, Capitalismo terminal - Capitulo 08 - Um novo processo civilizatório.  Disponível por enquanto apenas na Internet, no meu sítio www.lukasoar.com, também acessável a partir deste Blog.

 



Escrito por Luiz C.C.Soares às 09:06
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A nova Bolívia

Vejam só. No tempo em Maluf era (ou pretendia ser) candidato a presidente da república, eu garantia que, se esse desastre acontecesse, me mudaria para a Bolívia porque lá, pelo menos, a republiqueta era mais autêntica.  Agora, começo a pensar de novo que não estaria fora de cogitação eu me mudar para a Bolívia se o Brasil continuar no “neoliberalismo moderno a la Lula”. Que está por aí e talvez continue por algum ou muito tempo. Quais as razões para tal pensamento aparentemente tão tresloucado?

A primeira é que na Bolívia está  se instalando de verdade e na prática – não no discurso – um real e autêntico processo revolucionário de mudanças, de ordem ideológica, social, política e econômica. Nessa ordem de precedência. Outras razões?

Leiam a matéria abaixo e a seguinte, por favor.

8/12/2009

Por que Evo ganhou? Artigo de Atilio A. Boron

"O que há por trás dessa impressionante máquina de ganhar eleições, indestrutível apesar do desgaste de qutro anos de gestão, dos obstáculos interpostos pela Corte Nacional Eleitoral, da hostilidade dos Estados Unidos, das campanhas de desabastecimento, tentativas de golpes de Estado, ameaças separatistas e plano de magnicídio?"

Essa é a pergunta do sociólogo e politólogo argentino Atilio A. Boron, em artigo para o jornal Página/12, 07-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Uma semana atrás, celebrávamos o triunfo de Pepe Mujica no Uruguai. Hoje, temos renovadas – e também profundas – razões para festejar a notável vitória de Evo Morales. Tal como indicou o analista político boliviano Hugo Moldiz Mercado, o categórico veredito das urnas marca pelo menos três marcos importantíssimos na história da Bolívia:

1.      É o primeiro presidente democraticamente reeleito em dois períodos sucessivos;

2.      É o primeiro, além disso, que melhorou a porcentagem de votos com a qual foi eleito da primeira vez (53,7%); e

3.      É o primeiro a obter uma esmagadora representação na Assembleia Legislativa Plurinacional.

Além disso, quando sair a contagem definitiva – não disponível no momento de escrever estas linhas – talvez ele tenha concretizado a obtenção de dois terços no Senado, o que lhe permitiria nomear autoridades judiciais e aplicar a nova Constituição sem oposição Tudo isso converte Evo Morales, do ponto de vista institucional, no presidente mais poderoso na convulsionada história da Bolívia.

Obviamente, isso não vai impedir que o Departamento de Estado reitere suas conhecidas críticas acerca da "defeituosa qualidade institucional" da democracia boliviana, o "populismo" de Evo e a necessidade de melhorar o funcionamento político do país para garantir a vontade popular, como por exemplo se faz na Colômbia, onde cerca de 70 parlamentares do uribismo foram investigados pela Suprema Corte de Justiça e pela promotoria por seus supostos vínculos com os paramilitares, e 30 deles foram mandados à prisão com sentença firme por esse motivo.

O desempenho eleitoral do líder boliviano é impressionante: triunfo arrasador na convocatória da Assembleia Constituinte, em julho de 2006, que sentaria as bases institucionais do futuro Estado Plurinacional; outra esmagadora vitória em agosto de 2008 (67%) no Referendo Revocatório forçado pelo Senado, controlado pela oposição, com o aberto propósito de derrubá-lo; em janeiro de 2009, 62% dos votantes aprovou a nova Constituição Política do Estado.

O que há por trás dessa impressionante máquina de ganhar eleições, indestrutível apesar do desgaste de quatro anos de gestão, dos obstáculos interpostos pela Corte Nacional Eleitoral, da hostilidade dos Estados Unidos, das campanhas de desabastecimento, tentativas de golpes de Estado, ameaças separatistas e plano de magnicídio?

O que há é um governo que cumpriu suas promessas eleitorais e que, por isso mesmo, desenvolveu uma ativa política social: Bolsa Juancito Pinto, que chega a mais de um milhão de crianças; Renda Dignidade, um programa universal para todos os bolivianos maiores de 60 anos que carecem de outra fonte de renda; Bolsa Juana Azurduy, para as mulheres mulheres grávidas; que erradicou o analfabetismo aplicando a metodologia cubana do programa Yo Sí Puedo, que permitiu que se alfabetizasse mais de um milhão e meio de pessoas, razão pela qual, no dia 20 de dezembro de 2008,a Unesco (não os partidários de Evo) declarou esse país território livre de analfabetismo.

O solidário internacionalismo de Cuba e da Venezuela também permitiu a construção de numerosos hospitais e centros médicos, ao mesmo tempo em que milhares de pessoas recuperaram a visão graças à Operação Milagre. Importantes avanços foram registrados também em matéria de reforma agrária, na recuperação das riquezas básicas (hidrocarbonetos) e na administração da economia, o que permitiu que a Bolívia, pela primeira vez na história, conte com importantes reservas estimadas em 10 bilhões de dólares e com uma situação de bonança fiscal que, unida à colaboração da Venezuela no marco da Alba, permitiu que Morales realizasse numerosas obras de infraestrutura nos municípios e financiasse sua ambiciosa agenda social.

Obviamente, restam muitas matérias pendentes. Mas tudo o que foi dito somado à permanente preocupação de Evo em conscientizar, mobilizar, organizar sua base social – deixando de lado os desprestigiados aparatos burocráticos que, da mesma forma que na Argentina, não mobilizam ninguém – tornou possível o seu triunfo categórico. Seria bom tomar nota dessa lição.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 14:09
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Banda larga ou bunda larga?

“Pelamor de Deus! Que-qué-isso, companhêro”? Companheiro?!?! Ex-companheiro!!!

Continua a instituição: “para as estatais, o osso; para as privadas, o filé”! Caso tivéssemos deixado a rapadura para o Serra ou entregado a dita cuja para o Alkimim, isso seria mais autêntico. Mas ainda está em tempo... 2010 vem aí! Acabemos logo com essa conversa de “um país de todos”! Sai logo do sonho e cai na real: “UM PAÍS DE TODOS PARA ALGUNS”! Esse, com certeza é um slogan mais honesto... Bueno, pode ser que dona Dilma o adote...

Também, convenhamos, o que se pode esperar de um governo rodeado de meirelles, hélios costas, paulos bernardos, stefaness, lupis e que-tais? Ressalvadas a exceções que, como sempre, servem para justificar as regras.

Afinal, estamos tratando da banda larga ou da bunda larga?  

7/12/2009

Lula barra modelo só estatal na banda larga

O presidente Lula orientou sua equipe a montar um plano de universalização da banda larga no país por meio de um modelo misto. Prevaleceu a proposta de criação de uma estatal para gerenciar uma rede pública de fibras óticas, mas com a determinação presidencial de que o setor privado não fique fora desse programa.

A reportagem é de Valdo Cruz e Humberto Medina e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 06-12-2009.

Lula determinou ainda à sua equipe que, nas cidades onde o setor privado não se interesse pela exploração de banda larga, a futura estatal banque um serviço a preços subsidiados. Nesse caso, a estatal não forneceria diretamente o serviço, mas criaria um sistema no qual pequenos empresários locais possam obter uma espécie de "franquia" do governo para oferecer acesso à internet em alta velocidade.

De acordo com o esquema aprovado pelo presidente, o setor público, por meio da Telebrás, ficará responsável pela administração e gestão da rede de cabos, chamado tecnicamente de linhão ou "backbone". Será criado, porém, um sistema para garantir a atuação do setor privado, estimulando a concorrência para baratear o preço da banda larga no país.

As empresas do setor -como teles e provedores de internet- poderão, por exemplo, operar o serviço de distribuição de dados a partir do linhão até as cidades -o chamado "backhaul". Além disso, ficará com o setor privado também a chamada última milha -que é a venda do acesso à internet dentro das cidades a partir do "backhaul".

Cronograma

A próxima reunião com o presidente para discutir os últimos detalhes do Plano Nacional de Banda Larga está agendada para o dia 14, mas os técnicos temem não conseguir atender a tempo todos os pedidos do presidente Lula.

Ele solicitou, por exemplo, que seja apresentada uma estimativa de quanto custaria para o setor público bancar o acesso de banda larga em todo o país. Até aqui, os técnicos vinham desenhando um projeto que alcançaria cerca de 3.700 dos 5.561 municípios brasileiros.

Para desenvolver essa etapa, conectando essas 3.700 cidades, o governo avalia que seria necessário um investimento da ordem de R$ 2 bilhões. Agora, os técnicos estão avaliando quanto custaria cobrir todo o país com uma rede pública de acesso à internet.

Subsídio

O plano do governo é que a Telebrás seja uma empresa rentável, ou seja, que não precise de recursos do Tesouro para levar banda larga aos locais onde o serviço não é rentável.

Para isso, será necessário montar um sistema de subsídios cruzados.

A estatal ganha dinheiro vendendo acesso à sua rede no "atacado" (ou seja, ao seu "backhaul" e ao "backbone") nas regiões mais rentáveis (como São Paulo e Rio de Janeiro) e, com esses recursos, banca o eventual prejuízo que tenha oferecendo o serviço em cidades do interior do Nordeste e na região Norte.

No jargão técnico, "backbone" é a grande linha de fibras óticas que transmite os dados em grandes distâncias, em alta velocidade e com muita capacidade. O "backhaul" é a rede que sai dessa grande linha e chega às cidades. Pode ser física, por meio de fios ou cabos, ou por ondas de rádio.

Nem o "backbone" nem o "backhaul" levam o serviço até a casa do consumidor. Para isso, é preciso uma rede de cabos ou de transmissão sem fio, que, no jargão, é conhecida como "última milha".

O governo avalia que muitas cidades que hoje não são atendidas pelas teles não são, necessariamente, deficitárias. Para a ala do governo que saiu vencedora na discussão (Ministério do Planejamento e assessores diretos do presidente Lula), a classe C está sendo subestimada pelas atuais operadoras.

Ainda de acordo com essa leitura, o governo não pode contar com a colaboração das teles em seu projeto de universalizar a banda larga porque, no cenário atual, a ampliação desse mercado tira rentabilidade das atuais operadoras.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 03:48
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Duas matérias do anticonsumo

A seguir duas matérias que abordam movimentos em favor do anticonsumo.

Primeira matéria:

1/5/2009

A medida dos desejos: da era do consumo à política sóbria

Depois de uma longa euforia, estamos mudando de mentalidade: chegou o momento de nos tornarmos sóbrios.

Uma pesquisa feita no Natal passado apresentou resultados surpreendentes: os entrevistados declararam que, mesmo que o seu orçamento para os presentes era diminuto, não estavam, por causa disso, mais tristes, mas sim mais felizes.

A reportagem é de John Lloyd, publicada no jornal La Repubblica, 28-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No seu último e incisivo livro intitulado "É la stampa, bellezza!", Giorgio Bocca escreve algo particularmente pungente e severo sobre a natureza da publicidade moderna. "Ela é uma criadora irrefreável de desejos e de consumo, a potente locomotiva que arrasta o gênero humano a novas guerras e, talvez, à destruição".

Talvez, a sua previsão é excessiva, mas reflete um medo crescente que a crise em curso colocou em particular evidência. O temor é o de se ter superado um limite, além do qual não estamos mais nos limitando a consumir, mas estamos prejudicando o nosso futuro e o de nossos filhos. Somos prisioneiros de um sistema global cuja legitimidade política depende da capacidade de assegurar padrões de vida sempre mais altos e de consumir sempre mais. Isso vale em qualquer lugar e para todos, da nova política democrática de Barack Obama ao regime capitalista-comunista chinês; do político bilionário Silvio Berlusconi, que está sempre rindo, ao escocês presbiteriano, o sempre sombrio Gordon Brown; da caótica democracia indiana ao sinuoso autoritarismo russo. Em todo lugar, as elites políticas sempre fazem mais promessas.

A grande panacéia da nossa época foi o constante incremento dos padrões materiais, que atenuou as desigualdades entre os nossos países – que se intensificaram enormemente – oferecendo a esperança de um futuro melhor às gerações vindouras. Nós, que continuamos enriquecendo sempre mais, observamos com comiseração os menos afortunados que, sobretudo na África, combatem em guerras genocidas, desencadeadas em primeiro lugar pela misérie e pela pobreza.

A improvisada diminuição dos nossos padrões de vida nos transmite alguma outra coisa: nós, habitantes dos países ricos, talvez não voltaremos à riqueza em constante crescimento que davamos facilmente por óbvia. Os nossos privilégios nasciam do pressuposto de existir mão-de-obra de baixo custo à nossa disposição, provenientes do Leste Europeu, da China, da Índia e das Filipinas. Essa mão-de-obra tão barata é composta também por consumidores, e os seus governos devem assegurar-lhes mais. O seu "mais" é o nosso "menos".

A atitude que mais se adaptava à era do consumo era o hedonismo, cujos símbolos exteriores são os automóveis de grandes cilindradas, as TVs de plasma de dimensões exorbitantes, as roupas de marca, as férias nos resorts de luxo. Agora, ao invés, uma nova mentalidade começa a abrir caminho, que deve ser levada a sério: me refiro à sobriedade, à moderação, à simplicidade (grifo nosso). Desde sempre, prerrogativa daqueles que abraçaram estilos de vida "alternativos" – movimentos "verdes", figuras religiosas, até alguns socialistas –, ela sempre pareceu, para grande parte de nós, excêntrica e ingênua. Mas... e se eles tinham razão?

A nós todos que habitamos nos países ricos, lançou-se a seguinte mensagem: é verdade, devemos enfrentar um ou dois anos difíceis, mas depois o crescimento voltará. Mas também é verdade que o crescimento pode não voltar como antes, e que a política que se seguir a isso pode não ser mais dominada pela oposição da esquerda e da direita, mas sim pela necessidade de diminuir as expectativas.

Uma nova política é importante, cujo sucesso dependerá de uma nova atitude coletiva, que melhor se expressa no conceito de "sobriedade". Justamente como quem está bêbado é indiferente a si mesmo e àquilo que o circunda, quem é sóbrio, ao invés, é capaz de dar atenção a si e à sociedade. Depois de uma longa euforia, chegou o momento, para todos nós, de nos tornarmos sóbrios. Será difícil, mas provavelmente não teremos alternativas.

Segunda matéria

18/3/2009

O anticonsumo já tem uma legião de adeptos na internet

“Pare e toma só um segundo”, propõem, e despejam um monte de perguntas que convidam à reflexão. Tens realmente necessidade disso? Poderias emprestar de alguém? Tens algo que o substitua? Quantas horas terás que trabalhar para pagá-lo?

A reportagem é de Georgina Elustondo e está publicada no jornal argentino Clarín, 15-03-2009. A tradução é do Cepat.

Os movimentos que lutam contra o consumismo e os grupos que promovem um consumo responsável se multiplicam e encontraram na internet um espaço de “evangelização”. Em geral, são grupos comprometidos com uma distribuição mais eqüitativa dos recursos – muitos deles têm origem religiosa – e questionam o consumo compulsivo e subordinado ao bombardeio de seduções do mercado. Alguns, mais extremistas, até promovem o resgate dos dejetos do lixo.

É o caso dos “freegans” (www.freegan.info), que se autodefinem como “pessoas que desenvolvem estratégias alternativas para viver, baseadas no consumo mínimo de recursos”. Propõem até vasculhar o lixo em busca de “restos” que possam ser úteis. “Apesar dos estereótipos sociais sobre o lixo, os produtos que recolhemos são saudáveis”, afirmam.

Menos radicais são os integrantes do Simply Living (Vida Simples), um movimento que nasceu em 1973 nos Estados Unidos, convocando as pessoas para arrancar o Natal do embate comercial, e hoje defende um consumo responsável, limitado ao gasto com o que realmente é necessário e descartando frivolidades que nos levem a ter demais.

Outro grupo mais popular é o Movimento Anticonsumo, que surgiu no Canadá e nas regiões mais liberais dos Estados Unidos. O livro Sem Logo [2. ed., Rio de Janeiro: Record, 2002], da Naomi Klein, é quase seu manifesto fundacional. Suas colocações giram em torno da premissa de que as grandes corporações estão roubando o poder legítimo das pessoas e alienando a população com falsas necessidades de consumo.

Nessa linha ideológica se inscreve a Adbusters, uma organização anticonsumista criada em 1989 por Kalle Lasn e Bill Schmalz. Em sua revista, rica em humor e crítica inteligente, busca iluminar os mecanismos através dos quais o mercado impulsiona ao consumo, destacando as suas contradições e mensagens duplas. Além disso, promovem a campanha Buy Nothing Day (Não compre nada hoje), que convida a ficar 24 horas sem comprar nada, para a qual granjeiam cada vez mais adeptos.

Outro conhecido profeta antiglobalização e anticonsumo é o “Reverendo Billy”, um artista nova-iorquino que se tornou famoso por sua luta contra os abusos do consumismo. Mesmo que não seja religioso, fundou, junto com seus seguidores, a Igreja Pare de Comprar e prometem o ‘shopocalipsis’, o apocalipse das compras. Um sítio muito visitado por pessoas de fala hispânica é www.sindinero.org que reúne conselhos e recursos para viver gratuitamente, fomentando “estilos de vida menos dependentes do dinheiro”.

Também em espanhol, www.ecologistasenaccion.org reúne jovens e adultos que aspram a uma mudança social e ideológica em relação à forma como consumimos. E na Argentina, na página http://iconoclasistas.com.ar, almas crioulas se somam a essa tendência.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 15:39
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As possibilidades e probabilidades de Edgar Morin

É... Parece que o Morin está seguindo a minha trilha ( ou eu a dele...). De qualquer modo é confortador. O livro que acabei de escrever (por enquanto para a Internet), também fala de civilizações (e re-civilizações) e de caminhos. Acho que vou indicar-lhe a consulta, talvez ajude-o a encontrar o seu caminho... Ha-ha-ha-ha... Presunção e agua benta... a gente sempre tenta!

7/11/2009

‘Há possibilidades, não probabilidades, de esperança’. Entrevista com Edgar Morin

Edgar Morin tem a cabeça de um pássaro, ágil, inquieto, contundente, de uma raça que não se rende. Fala com a convicção de um otimista, mas sabe que as coisas estão mal, que se não for remediada a catástrofe é inevitável. A ética e a memória (de outros desastres) ajudarão para que o caos não aconteça. O filósofo, sociólogo, participou da resistência contra os nazistas, na França, “e seguirei resistindo às barbáries”. Tem 87 anos. Entre os estudantes da Faculdade de Sociologia da Complutense, em cujo Fórum falou na terça-feira, o autor de A política da civilização (ideia que copiou de Sarkozy) parecia um aluno a mais, mas com uma carga impressionante de sabedoria. E de pessiotimismo, como ele mesmo diz.

A entrevista é de Juan Cruz e está publicada no jornal El País, 06-11-2009. A tradução é do Cepat.

EIs a entrevista.

Você tem a sensação de que vivemos uma catástrofe nova ou já vimos isto antes?

O planeta Terra conheceu no passado catástrofes naturais, como o fim da época primária, que significou a destruição de 95% das espécies vivas... A novidade é que hoje está a caminho uma catástrofe que é resultante do desenvolvimento humano. Para mim, o aquecimento climático não é o mais importante, ainda que o seja; é que estamos em um processo combinado de destruição do planeta que nos leva a uma catástrofe geral ou a várias catástrofes combinadas. O desastre. Não se pode continuar muito tempo por este caminho.

Como mudar?

É um problema difícil. Não podemos mudá-lo com uma decisão; devemos pensar como se processaram as grandes mudanças do passado. Toda grande mudança tem um peso e uma forma que em seu início é muito humilde; pense em Jesus Cristo, em Maomé... Um desvio cria uma tendência e esta tendência pode mudar o caminho... Creio que as denúncias contra a mundialização do capitalismo são boas, mas não basta denunciar, é preciso anunciar. A enunciação não é um programa, é uma ideia mestra. Por exemplo, devemos insistir sobre a qualidade da vida, não sobre a quantidade; é uma boa ideia... Fiz algumas dessas enunciações em meu livro A política da civilização... E estou escrevendo outro que chamo O caminho no qual trato de demonstrar que é preciso buscar alguns caminhos (incluindo as coisas boas da mundialização).

Na sua conferência falava do clima de desesperança que pesa sobre nós. A política pode tirar este peso de cima de nós?

Quem sabe. As velhas gerações têm a sensação de que foram enganadas em sua fé no comunismo, em uma sociedade democrática harmoniosa, civilizada; no progresso como lei da história... Tudo isso se desintegrou e hoje os jovens estão totalmente desorientados... A análise que faço é que há possibilidades, não probabilidades, de esperança. E a esperança não se encontra no coração da desesperança. Hölderlin dizia: “Ali onde cresce o perigo cresce também a salvação”; isso significa que o crescimento do perigo nos remete à consciência do que acontece e nos enuncia o que deve ser feito... Antes da esperança era uma fé; agora é apenas esperança. É muito importante, porque se não houver esperança não haverá projeção no futuro.

Você dizia que Heráclito falava de buscar o inesperado. O que é o inesperado agora?

O inesperado é sair desta via mortal que seguimos; mas devemos buscar. Se buscarmos, encontraremos outra via.

E você fala da harmonia, de sua busca. Onde você encontra hoje harmonia?

Se a procuramos é porque ela não existe. Há momentos de harmonia no âmbito privado, no amor, quando seu time vence... Pedaços de harmonia: a poesia da vida... Não penso que a política sozinha possa dar a harmonia: a compreensão humana, a solidariedade, depende de nós, e daí virá a harmonia. Tudo há de recomeçar. É algo terrível, mas é também maravilhoso, porque necessitamos de um estímulo. Esta ideia me ajuda a viver. Sou otimista e pessimista, um pessiotimista, ou vice-versa. Quando estava na Resistência houve um momento de grandeza. Havia esperança. A ideia do Não da Resistência era também um Sim à liberdade, a uma esperança de liberdade. Não foi a liberdade que pensávamos, mas foi uma certa liberdade.

Falava da política. E os intelectuais, o que devem fazer?

Creio que hoje o seu papel é mais importante do que no passado. Mas se produziu muita esclerose, academicismo... Devem colocar sobre a mesa os problemas fundamentais, e não fazê-lo de uma maneira superficial.

Segue sendo um resistente?

Sim, na minha alma o sou; e seguirei resistente a todas as barbáries que existem.

Para ler mais:

·                     Nosso pensamento está muito preso ao passado’. Entrevista com Edgar Morin

·                     ''A violência deve ser tratada em sua complexidade''. Entrevista com Edgar Morin

·                     A ecologia da ação, segundo Edgar Morin

·                     Mal-estar de Maio de 68 é ainda mais profundo hoje. Entrevista com Edgar Morin

·                     O desafio da complexidade e da transdisciplinaridade. Entrevista com Edgar Morin

·                     ‘A política de civilização não pode ser hipnotizada pelo crescimento’, afirma Edgar Morin



Escrito por Luiz C.C.Soares às 11:13
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Lévi-Strauss

Bem, não dá pra desesperar... ainda me restam 25 anos para ficar célebre e ganhar uma manchete mais ou menos assim: "Morreu aos 100 anos o grande ... (a definir...) Luiz Carlos Correa Soares". Claro que não serei da estatura intelectual do Lévi-Strauss, mas posso tentar chegar próximo. Falta muito, mas...

Falando agora sério: é importantissima a sua obra, especialmente quanto aos posicionamentos intelectuais e políticos, com destaque para a sua trajetória no Brasil e na América indígena.

Lévi-Strauss falece aos 100 anos – 31-10-2009

Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Lévi-Strauss foi um dos grandes pensadores do século 20. Ele, que completaria 101 anos no próximo dia 28, tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.

De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil

"Ele soube partir do empirismo para dialogar e colocar a antropologia em pé de igualdade com outras ciências humanas, como a filosofia. Lévi-Strauss é um autor fundamental", afirma Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da USP e mestre e doutor em Antropologia Social na área de etnologia indígena.

Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Lévi-Strauss foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.

O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de indígenas das Américas do Sul e do Norte.

O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".


A corrente estruturalista da antropologia, da qual Lévi-Strauss é o principal teórico, surgiu na década de 40 com uma proposta diferente da antropologia de viés funcionalista, predominante até então. "O funcionalismo se preocupava com o funcionamento de cada sociedade e em saber como as coisas existiam na sua função social. O estruturalismo queria saber do trabalho intelectual. Olhar para os povos indígenas e buscar uma racionalidade e uma reflexão propriamente nativa", diz Sztutman.

Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas linguísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano.

"Ele abriu um caminho para pensar a filosofia indígena, valorizar o lado intelectual dos povos estudados, e não ficar naquela coisa 'nós (ocidentais) temos uma grande teoria e eles não'. Lévi-Strauss abriu caminho para valorizar o aspecto intelectual de outras populações", acrescenta Sztutman.

Lévi-Strauss não via o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.

Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integrou também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.

Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".



Escrito por Luiz C.C.Soares às 12:46
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História repetida...

Se a História não se repete, algumas "histórias" se repetem!

3/11/2009

O piquenique que rasgou a cortina e os novos 'muros'

O objetivo era promover um debate na fronteira entre o Ocidente e o bloco soviético, em uma iniciativa conjunta entre a Áustria e a Hungria. Mas o chamado Piquenique Pan-Europeu, organizado em 19 de agosto 1989 na pequena cidade húngara de Sopron, entrou para a história como a primeira brecha no que parecia ser a impenetrável Cortina de Ferro.

A reportagem é de Jamil Chade e publicada peo jornal O Estado de S. Paulo, 03-11-2009.

Três meses antes da queda do Muro de Berlim, uma parte da fronteira de 246 quilômetros entre os dois países ficou aberta por três horas, para que apenas os convidados do piquenique passassem para o outro lado da barreira. No entanto, os poucos guardas da divisa não impediram a fuga para o Ocidente de 600 alemães orientais que souberam da oportunidade e viajaram até a Hungria para aproveitá-la.

Nos bastidores, autoridades do Ocidente e do bloco soviético consideraram a ocasião um grande teste para Guerra Fria, com a percepção de que divisão na Europa já começava a se desfazer na Hungria.

Atualmente, a população de Sopron conta a história com um sorriso no rosto. "Foi o melhor ano de nossas vidas", disse a vendedora Annike Kispal, que tinha 22 anos em 1989.

Apesar da nostalgia, poucos se atrevem a explicar como surgiu a ideia de abrir a Cortina de Ferro. Segundo a versão mais aceita, a ala reformista do governo húngaro sabia que a situação era insustentável e queria verificar a extensão das promessas de reforma de Mikhail Gorbachev (1988-1991). O último líder soviético havia indicado que o Kremlin deixaria sua política de intervenção nos países do Leste e a substituiria pela "Doutrina Sinatra", uma ironia relacionada à canção My Way (Meu Jeito, em tradução livre).

Além das questões políticas, a Cortina de Ferro enfrentava problemas tecnológicos. O sistema de alarme "Sz-100", instalado ao longo da divisa entre 1965 e 1971 para substituir os arames e minas terrestres implantados em 1949, não funcionava. Obrigados a importar as peças de reposição da cerca ironicamente do Ocidente (a União Soviética, já em colapso, não fornecia mais o material), os húngaros realizaram em abril de 1989 testes secretos para desligar inteiramente o sistema.

Com o sistema superado moral, política e tecnologicamente, o governo desligou oficialmente a cerca dois meses depois, com o plano de removê-la inteiramente até 1991. Mas o que ocorreu nas semanas seguintes foi um processo acelerado de mudanças. Opositores húngaros, apoiados por membros do próprio governo, conseguiram organizar com Otto von Habsburg, aspirante ao trono do Império Áustro-Húngaro, o Piquenique Pan-Europeu.

Nos dias seguintes à fuga dos 600 alemães, Budapeste reforçou a fronteira e confrontos ocorreram entre os que tentavam escapar e os soldados, causando a morte do jovem alemão Kurt-Werner Schulz. Mas, em 11 de setembro de 1989, o governo húngaro abriu suas fronteiras definitivamente.

Atualmente, Sopron usufrui amplamente dos benefícios da União Europeia (UE), com o euro circulando livremente e um padrão de vida compatível ao da Áustria. A cidade também se transformou em um centro de tratamento dentário, com "turistas" de toda a Europa viajando até o local por causa dos serviços de baixo custo.

NOVO MURO

Apesar dos avanços, pesquisa recente do Instituto Ipsos indica que só 14% da população húngara diz ter obtido "ganhos reais" com o colapso do comunismo. Segundo a sondagem, 35% afirmam que o capitalismo não mudou suas vidas. Por causa da crise econômica iniciada no ano passado e da recessão, o FMI foi obrigado a socorrer o país neste ano, greves se proliferaram e o desemprego atingiu 10% - o maior desde 1989.

"Era para ser um ano de festas por causa dos 20 anos do fim do regime e dos cinco anos de adesão à UE, mas estamos debatendo onde vamos parar por causa da crise", afirmou Levente Baranyai, outro participante do piquenique de 1989.

Outro problema é o sentimento de que a Cortina de Ferro apenas mudou de lugar. A Hungria, assim como a Polônia, Romênia e Eslováquia, acabou se transformando na nova porta de entrada da UE ao aderir ao bloco. Mas, para conseguirem aprovar sua adesão, esses países se comprometeram a resguardar a Europa da imigração irregular e de criminosos. A UE já injetou 2 bilhões de euros para ajudá-los e tentar frear os 500 mil estrangeiros que por ano entram ilegalmente no bloco.

Diferentemente dos anos da Guerra Fria, a nova fronteira é bem mais sofisticada e não corre o risco de entrar em pane por falta de peças, como a dos soviéticos. No lugar de cães, minas e tanques, a UE investiu de forma pesada na instalação de sensores, barreiras eletrônicas e um sistema informatizado ligado aos dados da Interpol e das agências de Inteligência dos países europeus.

No total, são quase 6 mil quilômetros da nova "Cortina de Ferro", com câmeras a cada 150 metros em alguns locais, separando a UE do resto da Europa.

O patrulhamento das fronteiras, uma prioridade política desses governos, vem transformando a vida da população da região e isolando famílias ucranianas, sérvias, croatas e bielorrussas que por décadas estiveram próximas às fronteiras que hoje são da UE.

Na Ucrânia, a percepção é de que os países do Leste Europeu que aderiram à UE esqueceram seu passado. Alguns, de dentro da UE, admitem que estão traindo seus vizinhos. "Sinto que estamos fazendo com nossos vizinhos ucranianos o mesmo que sofremos durante décadas", afirmou o diretor do Departamento de Educação da Universidade Eslovaca de Tecnologia, Miroslav Babinsky.

Muros atuais

1.      Os EUA, que têm uma fronteira de 3.200 km com o México, constroem, desde 2006, um duplo muro de 1.125 km de comprimento entre a Califórnia e o Texas para impedir a imigração clandestina proveniente do sul.

2.      Na província de Buenos Aires, na Argentina, um muro foi erigido para separar o bairro rico de San Isidro daquele mais pobre, de San Fernando.

3.      Um muro cerca a favela de Santa Marta na zona sul do Rio de Janeiro.

4.      Uma cerca separa o Zimbabwe da África do Sul. É uma tentativa de impedir que cidadãos do Zimbabwe, esfomeados, migrem ilegalmente para o país vizinho do sul.

5.      Uma nova cerca separa o enclave espanhol de Melila do Marrocos e limita a migração para a Europa.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 12:28
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Fariseus e saduceus

Dom Dimas foi polido e diplomático e, por isso, deixou nas entrelinhas o seu pensamento. Muito claro, todavia, para quem for minimamente conhecedor do mundo – não apenas do submundo – político. Eu, como não tenho a necessidade de ser diplomático nem polido nem de usar entrelinhas, dou nome aos bois, aos porcos, aos lobos, às hienas, quando necessário.

 Os fariseus (que “parecem uma coisa por fora, mas por dentro são outra") são constituídos pela imensa maioria dos políticos que vicejam no poder. Ou  ao redor dele, como mariposas. Os saduceus são todos os partidos, exceto os de esquerda enquanto não chegam ao poder. Quando chegam, muitos dos seus adeptos “migram” para o ramo dos fariseus. Em suma, o poder é sempre rodeado e/ou constituído por “farisaicos” e “saducistas”. E tenho dito!

23/10/2009 (II)

''Jesus não fez aliança com fariseus e saduceus'', diz CNBB

Ao ser indagado ontem sobre as declarações feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que se Jesus Cristo vivesse nos dias de hoje teria de fazer coalizão até com Judas para poder governar, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Dimas Lara Barbosa, fez a seguinte observação: "Judas era um discípulo de Jesus. Mas Jesus não fez aliança com fariseus e seduceus."

A reportagem é de Lígia Formenti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-10-2009.

Logo em seguida ele explicou que fariseus são "pessoas que parecem uma coisa por fora, mas por dentro são outra". Nos textos do Evangelho eles aparecem como adversários de Jesus, que os critica sobretudo por sua hipocrisia e avareza.

Questionado se estava se referindo indiretamente a partidos da base governista, especialmente ao PMDB, o bispo respondeu: "Quando falei em fariseus não estava me referindo a partidos políticos", explicou. Mas Deus conhece o coração das pessoas."

OPORTUNISTAS

Os fariseus e saduceus formavam dois grupos com grande força política e religiosa em Israel na época em que Cristo viveu. Os saduceus, segundo o Dicionário de Termos Religiosos e Afins, da Editora Santuário, constituíam um partido com "ideologia conservadora e oportunista, de sorte que se acomodavam ao poder dominante, neste caso a Roma". De acordo com a mesma fonte, os dois grupos contribuíram de forma decisiva para a condenação de Cristo à morte.

D. Dimas fez os comentários ao término de uma cerimônia na qual foi anunciado o lançamento de uma campanha que pretende estimular as pessoas a realizar o teste de HIV e de sífilis. A campanha é uma parceria entre a CNBB e o governo federal, por meio do Ministério da Saúde.

Logo após falar sobre as declarações de Lula, o representante da CNBB lembrou que está em discussão no Congresso o projeto de lei conhecido como ficha limpa, que tem como objetivo proibir candidaturas de pessoas com pendências na área do Judiciário.

"Quero aproveitar a ocasião para lembrar que a Igreja continua com a sua luta a favor do projeto de fichas limpas na política", disse o secretário-geral da CNBB. "A coisa pública exige o mínimo de ética de quem a pratica." Em suas declarações, d. Dimas lembrou ainda que a Igreja está preocupada com os pobres do País, que muitas vezes permanecem à margem da sociedade e dos processos políticos.



Escrito por Luiz C.C.Soares às 17:20
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Ética x neoliberalismo

É isso aí. Mas quando eu falo algo similar, como não se trata de um Ladislau Dowbor, fico fazendo pregação aos peixes...

23/10/2009 (I)

‘Neoliberalismo está sofrendo condenação ética’, afirma Dowbor

“Ético é quanto mais a pessoa conseguiu contribuir para melhorar o planeta, e não quanto arrancou dele. Essa é a virada básica, é a condenação da ética do neoliberalismo”. A opinião é do economista Ladislau Dowbor em entrevista ao sítio da Revista do Brasil, 19-10-2009.

Eis a entrevista.

O senhor fala bastante sobre o papel das decisões locais em contraposição às estaduais e federais. Na economia, é possível pensar em mudanças necessárias nesse sentido?

Vai no sentido da democratização da própria economia. Não basta uma democracia em que você coloca o voto a cada dois anos na urna, mas os processos econômicos tem de ser democratizados. Veja por exemplo o fato de que todos os bancos fazem uma série de atividades especulativas, cobram juros absolutamente astronômicos com dinheiro dos outros. É natural que o dinheiro do público tenha uma parte de lucro, mas que sobretudo sirva às necessidades do desenvolvimento.

Isso nos leva a pensar que os diversos recursos da sociedade precisam ser usados de maneira inteligente. São Paulo é uma cidade que arrancou os trilhos de bonde porque não interessavam às grandes montadoras. Hoje, estamos todos paralisados por excesso de veículos. São Paulo precisa de mais metrô e de mais corredor de ônibus, e não de mais pistas nas marginais.

Na realidade, há uma reflexão mais ampla. Por que não funciona? Por que a Suécia é bem administrada? Por que há estados na Índia muito mais pobres em que as coisas funcionam? Funciona onde a sociedade está organizada em torno de seus interesses, participa por organizações do terceiro setor, ONGs etc. Há agências locais de desenvolvimento que articulam os diversos apoios. É aquilo que chamamos de “vibrantes participativas”. Ali as coisas funcionam por uma razão simples: a população está interessada em viver melhor.

Por isso a participação nos fóruns locais?

As pessoas dizem que está tudo globalizado. É bobagem. O carro é um produto global, as finanças e os meios de comunicação se globalizaram. Mas o hortifrutigranjeiro da minha comida é essencialmente local. A qualidade da escola, a arborização da rua, a riqueza cultural, a qualidade do esgoto, tudo isso é local.
Grande parte do nosso cotidiano é perfeitamente gerido de maneira participativa pelas comunidades. Imaginar que vá aparecer um bom governador que vai resolver tudo ou uma boa empresa que vai resolver tudo? Esqueça. O município é o tijolo com o qual se forma o país, ou seja, cada um tem de ser muito bem alimentado.

Esse poder local não pode ser confundido com princípios do neoliberalismo de desvalorizar o Estado?

O Estado neoliberal está hoje à procura do próprio rabo. O PIB mundial é de US$ 60 trilhões. O sistema especulativo emitiu em papéis que estão voando por aí US$ 680 trilhões. Isso não elimina a eficiência de pequena e de média empresa. Significa um reequilibramento: não podemos ter os bancos fazendo o que querem.

Um exemplo interessante é o da Dinamarca. Eles não trabalham com planejamento do Estado nem vale-tudo do mercado, mas com uma gestão econômica. Por exemplo, uma empresa que vai se instalar em um município vai conversar com prefeito, movimentos sociais, e com isso vai ser bem aceita e vai funcionar melhor.

O que temos na mesa não é um modelo contra outro modelo, as grandes simplificações do século passado. É realmente um modelo que consiga uma visão mais equilibrada entre o papel do Estado, o papel das empresas e o da sociedade civil.

Sempre aparece por aqui que o Brasil tem os mais altos impostos do mundo. Isso é fácil dizer porque ninguém sabe como está no resto do mundo, então se aceita uma bobagem dessas. Temos um imposto que é 35% do PIB. Na Suécia, é 66% do PIB. Mas, na hora de gastar o imposto, transformá-lo em iniciativas públicas, 72% dos recursos são gastos no nível local, com participação da comunidade. No Brasil, (isso equivale a) 15%. Ou seja, não é só o tamanho do Estado, é onde está o Estado, que deve ter muito mais presença frente à corporação.

A corporação, a partir de (Margareth) Tatcher e (Ronald) Reagan, se arvorou realmente como líder político do mundo, e isso claramente deu com os burros n'água: crise financeira, crise climática, esgotamento dos recursos naturais, destruição da vida nos mares. O reequilibramento deve ter uma função muito mais presente do Estado, maior participação das organizações da sociedade civil, e um papel mais modesto e mais inteligente do mundo empresarial.

O Brasil tem encontrado caminhos na tentativa de refazer o pensamento atual?

Sim, sobretudo por políticas aplicadas, um conjunto de iniciativas. No Bolsa Família são R$ 15 bilhões, no Territórios da Cidadania são R$ 20 bilhões, no apoio ao agricultor familiar, o ProUni, a eletrificação do meio rural, o aumento do salário mínimo, é imenso. As pessoas não imaginam a mudança que é, para uma pessoa muito pobre, R$ 150 a mais. É a diferença entre viver ou não, entre um menino amanhã ser um trabalhador robusto ou não. Há um conjunto de políticas tentando reequilibrar o país em termos sociais e ambientais.

Nós passamos de um desmatamento de 28 mil quilômetros quadrados em 2002 para 10 mil quilômetros quadrados atualmente. É uma tragédia? Ainda é uma tragédia. Aliás, se quiser comparar com o MST: os 10 mil quilômetros destruídos anualmente pelas grandes corporações equivalem a 3 mil hectares por dia. Eu sou contrário a esse negócio de derrubar pé de laranja, mas vamos ser realistas, né?

No caso brasileiro, entre o desafio ambiental e o desafio social, o da desigualdade se apresenta como mais gritante. Não precisa ir longe, na periferia de São Paulo há uma imensa favelização. Em Cidade Tiradentes (zona leste da capital paulista), há 200 mil moradores para 2.400 empregos. O pessoal levanta 4h30 da manhã e volta às 22h. Não tem vida de família, não tem tempo para nada. É preciso um mínimo de respeito para a população.

Que posição o senhor espera que o Brasil leve a Copenhague?

O Brasil tem um ponto forte por ter uma estrutura relativamente limpa de energia, um imenso potencial de biocombustíveis, terra e água em condições ideais, e um governo que gerou uma enorme simpatia mundial pelo país.

Mais importante que a posição do Brasil é a articulação que se vai fazer. Não se pode fazer uma exceção para o Brasil. Precisamos olhar a posição da China, da Rússia, da Indonésia, do conjunto, enfim. Os Estados Unidos têm 4,6% da população mundial e emitem 21% dos gases estufa. Isso não é viável.
Copenhague é um momento, acho que a gente não deve exagerar. Mas é a hora em que o mundo faz um balanço. Estamos destruindo o planeta. Que melhorias devemos fazer? Repercussões de Copenhague já estão existindo. Há uma discussão nos Estados Unidos de ver se junta com o problema da saúde e de outras coisas.

Está evidente que o modelo de vale-tudo não funciona. A visão ética, que é quanto mais a pessoa conseguir ficar rica, mais é vista como sucesso, isso foi para o espaço. Ético é quanto mais a pessoa conseguiu contribuir para melhorar o planeta, e não quanto arrancou dele. Essa é a virada básica, é a condenação da ética do neoliberalismo.

Para ler mais:

A crise financeira e o impacto ambiental. Entrevista especial com Ladislau Dowbor

A lógica do sistema é simplesmente insustentável ambientalmente. Entrevista especial com Ladislau Dowbor 

Catástrofe em câmara lenta. Voltar ao bom senso. Eis o desafio! Entrevista especial com Ladislau Dowbor



Escrito por Luiz C.C.Soares às 15:48
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"É uma vergonha..."

Só mesmo repetindo o Boris Casoy: “é uma vergonha...!”

O processo ideologizante continua em trânsito. Vejam a sutileza: “Serra está à esquerda de Lula”.

É no que dá a manutenção do neoliberalismo à brasileira: “mudar para não mudar!” É o caso da política financeira e econômica, eterna, imutável: “tudo – mas tudo, mesmo - ao mercado e ao sistema financeiro”!

Depois de quatro anos de Collor/Itamar, mais oito de FHC (o vendilhão da pátria) e mais oito de Meirelles (ooopsss...) Lula, claro está que mais quatro (ou oito) de PSDB (ou de PT transmutado em PMDB), é a glória eterna para os rentistas do mundo, não apenas do Brasil. Mas e o povo brasileiro? Oras, o povo brasileiro que se contente com as migalhas do banquete da burguesia universal.

Uma perguntinha, “en passant”: por que depois de sete anos, ou seja, a 1/8 de dois mandatos, é taxado o capital estrangeiro? Ah, claro, sempre serão encontradas justificativas. E muitas. E poderosas. Mas e as “injustificativas”? E as “injustiças” sociais e ambientais cometidas para poder “dar” (=doar) dinheiro para banqueiros, financistas e empresários poderosos?

Um amigo meu, já falecido (que Deus o tenha em bom lugar!), quando certas atitudes ou certos relacionamentos não tinham explicações visíveis, racionais e lógicas, costumava dizer: “isso aí tem c... no meio!”

E é o eu acho: a política econômica/financeira no Brasil sempre teve (e continuará a ter?) c... no meio, ou seja, razões inconfessáveis, que se situam no submundo dos negócios inconfessáveis com retornos inconfessáveis para contas inconfessáveis em bancos inconfessáveis e para pessoas inconfessáveis!

Vejam o texto abaixo, o qual, na minha percepção, reflete uma realidade cruel, inominável, tal como foi destacado acima. E digam o que acham das perspectivas para nós outros, os vis mortais lutadores pela sobrevivência! Não dá uma vontade enorme de chorar? Já que pegar em armas e sair por aí matando os f.d.p’s não é permitido pelas leis “usuais” do mundo e dos “deuses”, estes sob todas as concepções sejam elas quais forem...!

20/10/2009

Luciano Coutinho, desenvolvimentista, presidente do Banco Central?

Às vésperas da penúltima reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atenuou-se o principal temor do mercado. A estratégia de substituição um a um, espaçada no tempo, e não em bloco, de quatro diretores do BC reduz consideravelmente a possibilidade de o Comitê ser tomado de assalto, em março, por uma tropa de elite desenvolvimentista. O pregão de juros futuros da BM&F vinha exagerando na projeção de alta da Selic não tanto porque receava os eventuais impactos inflacionários de um suposto superaquecimento da economia brasileira, decorrente de estímulos fiscais irresponsáveis. Mas por medo de mudanças "ideológicas" na política monetária.

A reportagem é de Luiz Sérgio Guimarães e publicada pelo jornal Valor, 19-10-2009.

Para que a famosa "curva futura dos juros" seja construída é necessária a participação do investidor que aceita correr o risco das aplicações prefixadas. E este andava muito arredio, mas não por culpa da prodigalidade fiscal da Fazenda. Exigia o pagamento de robustos prêmios - a ponto de a curva estimar taxa Selic de 12,25% no final do governo Lula, um salto de 3,5 pontos em relação à taxa atual, de 8,75% - muito em função do pavor de que o BC fosse ocupado, de uma vez só, não por um, mas por quatro desenvolvimentistas.

Além do presidente Henrique Meirelles, pré-candidato do PMDB a algum cargo político, já manifestaram o interesse de deixar a instituição os diretores mais afinados com a ortodoxia monetarista professada pelo mercado - o de Política Econômica, Mário Mesquita, e o de Política Monetária, Mário Torós - e o diretor de Liquidações, Antonio Gustavo Matos do Vale. E o mercado temia que os quatro iriam sair todos juntos, em março. A debandada abriria espaço para a nomeação de quatro diretores alinhados com o desenvolvimentismo da candidata oficial Dilma Rousseff. Os quatro continuariam no BC em caso de vitória da ministra. Não haveria alteração na nova orientação pró-desenvolvimento, mesmo que o novo presidente do BC, o professor da Unicamp Luciano Coutinho, fosse alçado ao Ministério da Fazenda.

O mercado se assustou com o tamanho do estrago: como o Copom é composto por oito membros, de uma tacada só metade dele seria trocada por economistas orientados por princípios opostos aos hoje hegemônicos. Sem contar que um quinto diretor, o de Normas e Organização, Alexandre Antonio Tombini, por sua simpatia a ideias da Fazenda, sempre foi considerado um estranho no ninho neoliberal. Diante dessa possibilidade, os aplicadores em prefixado se retraíram a ponto de promover uma inclinação positivamente irrealista da curva de juros.

Mas as últimas indicações, passadas ao mercado às vésperas da reunião de quarta-feira do Copom, são de que as trocas não serão feitas em bloco. Torós sairá primeiro, depois Mesquita e Vale. Só então Meirelles se afastaria. Ou seja, até a sua saída, os substitutos seriam escolhidos pelo atual presidente. E este não irá admitir nenhum desenvolvimentista em seus domínios. E colocará seu prestígio junto a Lula para fazer o seu sucessor. O mercado gostaria que o presidente da transição fosse Mário Mesquita, mas se conformaria com Alexandre Tombini. Na sexta-feira, revelada a estratégia de saída intercalada de diretores, os juros caíram na BM&F. A taxa para o fim do governo Lula cedeu de 10,49% para 10,43%.

Os analistas do mercado não acreditam que Lula ou Dilma irão arriscar a estabilidade monetária e colocar heterodoxos no BC, economistas que defendem quedas maiores da Selic e a imposição de controles ao capital estrangeiro para evitar a apreciação cambial. Sintetizando uma opinião quase consensual do mercado, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, garante que se Dilma se aliar aos desenvolvimentistas, "não governará". "O mercado não dará crédito caso acredite que irão ocorrer maiores desequilíbrios fiscais", diz Agostini. A instituição Banco Central mudou de patamar no Brasil e ganhou credibilidade internacional. A sua autonomia operacional está consolidada. "A política fiscal no Brasil tem caráter político, enquanto a política monetária tem caráter técnico. Nessa condição, creio ser difícil a política monetária ser aliada da fiscal", diz Agostini.

O que um economista heterodoxo teria a dizer sobre um desenvolvimentista no BC? O professor da UnB, José Luis Oreiro, diz que além das razões técnicas há argumentos políticos a favor da manutenção da Selic em 8,75% até o fim do atual governo. Oreiro duvida que Lula autorize uma elevação de juros em 2010. "Se isso acontecer, o governador José Serra terá munição de sobra para bater no governo", diz o economista. Oreiro lembra que Serra tem afirmado várias vezes que "está à esquerda de Lula".

"Seus escritos - tanto os recentes como os antigos - mostram uma coerência inatacável no que se refere às críticas à condução da política monetária pelo BC", diz o professor. O cenário que ele desenha como mais provável é que em março Lula escolherá um desenvolvimentista para ocupar a presidência do BC, "blindando assim o governo da linha mais evidente de críticas por parte de Serra".

Nesse contexto, o nome mais provável é mesmo o do atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho. "Ele seria chamado para o sacrifício em troca do cargo de Ministro da Fazenda no governo Dilma. Coutinho tem a expertise técnica e a habilidade política para segurar a decisão do Copom ao longo de 2010, impedindo assim uma elevação da taxa de juros que se mostraria muito custosa em termos políticos para o projeto político do presidente Lula", diz Oreiro.

Se for assim, o BC de Meirelles tem mais quatro reuniões (a de quarta-feira, a de 9 de dezembro, a de 27 janeiro e a de 17 de março) para subir a Selic e tornar a alta um fato consumado técnico e político. Mas como fazer isso se a inflação no acumulado de 12 meses está em queda e ficará em queda até o terceiro trimestre de 2010, se o Federal Reserve não elevar a taxa americana e se o dólar continuar afundando?



Escrito por Luiz C.C.Soares às 20:29
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